sábado, 14 de julho de 2007

No Público de Hoje

«Vêm estas considerações a propósito de um artigo de opinião (PÚBLICO de 6 de Julho) de um ilustre advogado sobre a actual ausência de rigor no sistema de ensino. Em primeiro lugar, com todo o respeito por esse senhor, respeito devido a qualquer cidadão, infelizmente assiste-se hoje a uma vertigem de publicações de notáveis sociais com as mais diversas opiniões sobre tudo e sobre qualquer coisa. Em segundo lugar, isto deriva em consequências imediatas; sobre o elogio à proposta do Partido Popular de exames em qualquer esquina, há a defesa dessa ideia, sustentada pela ideia de rigor na avaliação de tudo quanto é elemento do sistema de ensino. O que é inacreditável é o simplismo com que se aborda uma questão complexa do sistema educativo. Nem abordarei questões específicas sobre a real validade dos exames para quantificar a qualidade do ensino. Mas é trágico observar determinação na defesa de uma ideia quando não se apresenta qualquer argumento interno e substancial para a defesa desse rigor. Os formandos não sabem nada, os formadores nada fazem para superar isso. Na prática é esta a teoria argumentativa. Sobre a ideia consequente apontada de falta de estruturas pessoais que definam os indivíduos para as metas da competitividade laboral, sobre esta obsessão pela máquina liberal, como professor, defino como minha prioridade absoluta a formação dos indivíduos como seres pensantes e capazes de actuar em sociedade, de se reconhecerem pessoal e humanamente (e daí também como seres capazes de se integrarem na organização social e profissional). A primeira linha da competitividade na formação dos jovens é o conhecimento nas suas mais diversas vertentes. Os padrões económicos são uma necessidade de sobrevivência, não uma necessidade de essência do ser humano. E se isto é corporativismo, defenda-se acerrimamente. E, imagine-se, nem tenho nada a ver com sindicalismos da classe ou politiqueiros! Apenas um anónimo que sabe do que fala!»
Jorge Silva, professor
Braga

terça-feira, 19 de junho de 2007

Um retrato de Sócrates, por António Barreto

«A saída de António Costa para a Câmara de Lisboa pode ser interpretada de muitas maneiras. Mas, se as intenções podem ser interessantes, os resultados é que contam.

Entre estes, está o facto de o candidato à autarquia se ter afastado do governo e do partido, o que deixa Sócrates praticamente sozinho à frente de um e de outro. Único senhor a bordo tem um mestre e uma inspiração. Com Guterres, o primeiro-ministro aprendeu a ambição pessoal, mas, contra ele, percebeu que a indecisão pode ser fatal.

A ponto de, com zelo, se exceder: prefere decidir mal, mas rapidamente, do que adiar para estudar. Em Cavaco, colheu o desdém pelo seu partido. Com os dois e com a sua própria intuição autoritária, compreendeu que se pode governar sem políticos.

Onde estão os políticos socialistas? Aqueles que conhecemos, cujas ideias pesaram alguma coisa e que são responsáveis pelo seu passado? Uns saneados, outros afastados. Uns reformaram-se da política, outros foram encostados. Uns foram promovidos ao céu, outros mudaram de profissão. Uns foram viajar, outros ganhar dinheiro. Uns desapareceram sem deixar vestígios, outros estão empregados nas empresas que dependem do Governo. Manuel Alegre resiste, mas já não conta.

Medeiros Ferreira ensina e escreve. Jaime Gama preside sem poderes. João Cravinho emigrou. Jorge Coelho está a milhas de distância e vai dizendo, sem convicção, que o socialismo ainda existe. António Vitorino, eterno desejado, exerce a sua profissão.

Almeida Santos justifica tudo. Freitas do Amaral reformou-se. Alberto Martins apagou-se. Mário Soares ocupa-se da globalização. Carlos César limitou-se definitivamente aos Açores. João Soares espera. Helena Roseta foi à sua vida independente. Os grandes autarcas do partido estão reduzidos à insignificância. O Grupo Parlamentar parece um jardim-escola sedado. Os sindicalistas quase não existem. O actual pensamento dos socialistas resume-se a uma lengalenga pragmática, justificativa e repetitiva sobre a inevitabilidade do governo e da luta contra o défice. O ideário contemporâneo dos socialistas portugueses é mais silencioso do que a meditação budista. Ainda por cima, Sócrates percebeu depressa que nunca o sentimento público esteve, como hoje, tão adverso e tão farto da política e dos políticos. Sem hesitar, apanhou a onda.

Desengane-se quem pensa que as gafes dos ministros incomodam Sócrates. Não mais do que picadas de mosquito. As gafes entretêm a opinião, mobilizam a imprensa, distraem a oposição e ocupam o Parlamento. Mas nada de essencial está em causa. Os disparates de Manuel Pinho fazem rir toda a gente. As tontarias e a prestidigitação estatística de Mário Lino são pura diversão. E não se pense que a irrelevância da maior parte dos ministros, que nada têm a dizer para além dos seus assuntos técnicos, perturba o primeiro-ministro. É assim que ele os quer, como se fossem directores-gerais. Só o problema da Universidade Independente e dos seus diplomas o incomodou realmente. Mas tratava-se, politicamente, de questão menor. Percebeu que as suas fragilidades podiam ser expostas e que nem tudo estava sob controlo. Mas nada de semelhante se repetirá.

O estilo de Sócrates consolida-se. Autoritário. Crispado. Despótico. Irritado. Enervado.

Detesta ser contrariado. Não admite perguntas que não estavam previstas. Pretende saber, sobre as pessoas, o que há para saber. Deseja ter tudo quanto vive sob controlo.

Tem os seus sermões preparados todos os dias. Só ele faz política, ajudado por uma máquina poderosa de recolha de informações, de manipulação da imprensa, de propaganda e de encenação. O verdadeiro Sócrates está presente nos novos bilhetes de identidade, nas tentativas de Augusto Santos Silva de tutelar a imprensa livre, na teimosia descabelada de Mário Lino, na concentração das polícias sob seu mando e no processo que o Ministério da Educação abriu contra um funcionário que se exprimiu em privado. O estilo de Sócrates está vivo, por inteiro, no ambiente que se vive, feito já de medo e apreensão. A austeridade administrativa e orçamental ameaça a tranquilidade de cidadãos que sentem que a sua liberdade de expressão pode ser onerosa. A imprensa sabe o que tem de pagar para aceder à informação. As empresas conhecem as iras do Governo e fazem as contas ao que têm de fazer para ter acesso aos fundos e às autorizações.

Sem partido que o incomode, sem ministros politicamente competentes e sem oposição à altura, Sócrates trata de si. Rodeado de adjuntos dispostos a tudo e com a benevolência de alguns interesses económicos, Sócrates governa. Com uma maioria dócil, uma oposição desorientada e um rol de secretários de Estado zelosos, ocupa eficientemente, como nunca nas últimas décadas, a Administração Pública e os cargos dirigentes do Estado. Nomeia e saneia a bel-prazer. Há quem diga que o vamos ter durante mais uns anos. É possível. Mas não é boa notícia. É sinal da impotência da oposição. De incompetência da sociedade. De fraqueza das organizações. E da falta de carinho dos portugueses pela liberdade.»

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

Uma entrevista que...

... ajuda a pensar (n)o mundo actual através da História...

A política, os conflitos internacionais, e muito mais.


Entrevista com Arno J. Mayer, 2002 -
aqui.

domingo, 14 de janeiro de 2007

"O mundo não é um infantário"

(No Público de hoje)

«O MUNDO NÃO É UM INFANTÁRIO
frei Bento domingues, o.p.


1.Não é preciso recorrer à clarividência de Freud para ver que o mundo não é um infantário.
Num infantário normal está tudo preparado para dar conforto, segurança e prazer às crianças, mas só nos sonhos de um paraíso perdido é possível ver o mundo, fruto do azar ou de um desígnio, organizado para nosso prazer.
Esta observação vem a propósito de duas grandes notícias da passada semana: o futuro da União Europeia e o da guerra no Iraque.
A União Europeia não nasceu para ser um jardim de delícias como, às vezes, se imagina. As novas gerações devem saber que foi o fantasma de duas terríveis guerras mundiais, no espaço de 20 anos, com dezenas de milhões de vítimas, que esteve na origem da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço (1951) e dos Tratados de Roma (Comunidade Económica Europeia e Comunidade Europeia da Energia Atómica), assinados em Março de 1957.
Dominados pelas dificuldades e desencantos no processo da construção da União Europeia, não reparamos no alcance civilizacional desse acontecimento económico de há 50 anos. Teve, no entanto, o mérito incomparável de manter viva a convicção de que as guerras não resolvem nenhum problema. Só os multiplicam. Diz-nos que a solução para os conflitos não se deve procurar na guerra, mas na cooperação. O apelo às armas, que se ouve por todo o lado, vem do terrorismo e do combate terrorista ao terrorismo. Serve, apenas, para alimentar o círculo vicioso da violência e os negócios associados à indústria bélica.
Apesar de todos os cépticos, meio século depois, já são 27 países a verificar que a União Europeia, a que aderiram, não é nem um infantário - um lugar de vantagens sem deveres nem encargos - nem uma tarefa impossível, embora pouco e mal explicada aos cidadãos. É um projecto económico, social e político extremamente difícil, para realizar a união na diferença dos seus povos e para não regressar às velhas rivalidades entre Estados. Terá de contar sempre com soluções de compromisso. Os europeus não pertencem a uma só cultura, a um só clube político e a uma só religião. É normal que as dificuldades da caminhada, com ritmos tão diferentes, provoquem miragens e desilusões. Sem ter ainda resolvido os problemas da sua Constituição, para enfrentar os desafios da globalização económica, a questão energética e as alterações climáticas, para lançar pontes em todas as direcções, especialmente com África, a União Europeia está a reconhecer que precisa de um novo folgo e de novos impulsos.

2. A Europa não é só uma questão interna. No diálogo ibérico, no contexto europeu e mundial, entre Mário Soares e Federico Mayor Zaragoza, ex-director-geral da UNESCO (1), o grande desejo é que a Europa seja, para o mundo, "um farol de democracia", favorecendo, em toda a parte, a interlocução, e de um modo muito especial com os EUA, sem qualquer seguidismo, para se ir forjando uma nova visão, em que a palavra substitua a força e em que se recupere um rumo baseado nos direitos humanos, no pluralismo e na justiça. Acontece que as democracias nos países mais adiantados - América do Norte e a União Europeia - estão, desde o colapso mundial do comunismo, a transformar-se, paulatinamente, em plutocracias... O poder real é o poder económico-financeiro, e esse não é regido por regras democráticas. Não basta repetir que a União Europeia está, desde há anos, sem uma política externa autónoma e concertada entre os seus membros e incapaz de avançar para uma reforma das suas instituições. Vetado o Projecto de Constituição, pela França e pela Holanda, é mantida pela burocracia, sem um rumo seguro que a levaria, por contágio, a ter um alcance democrático em todo o mu ndo.
Mas será que o mundo precisa da União Europeia? Precisa, e por várias razões: para que a grande recomposição geoestratégica em curso, num mundo globalizado e sem preocupações éticas, possa ser equilibrada, para que a política venha a comandar a economia (e não o contrário), para que as grandes causas humanistas - a luta pela paz e pelo direito contra a pobreza e em defesa do planeta ameaçado, pelo acesso à educação e ao bem-estar, sem discriminações - possam tornar habitável um mundo de conflitos.

3. É evidente que o mundo não é um infantário, mas não tem de ser uma selvajaria. Hoje, é bastante consensual que a desgraça em que o Iraque foi transformado resultou de uma articulação de várias mentiras e da confiança no poder das armas para impor um regime colonial. Na passada quinta-feira, a RTP2 transmitiu o retrato de um pelotão de soldados norte-americanos feito na devastada cidade de Fallujah, no lraque, durante o Inverno de 2003, intitulado, "Ocupação: a Terra dos sonhos". Um iraquiano tentava explicar a um grupo de soldados: a América pode ir à Lua, pode fabricar armas nucleares, não pode produzir um povo. Nós não podemos aceitar o colonialismo.
Como foi possível que os EUA, com uma democracia exemplar, com as melhores universidades do mundo, com os melhores institutos de investigação em todos os domínios, com os melhores centros de informação, tenham desencadeado, no Iraque, a maior selvajaria dos últimos tempos?
A grande ameaça vem da associação do poder do dinheiro com o poder das armas e com o poder dos grandes meios de comunicação transformados em publicidade. Uma pequena minoria, senhora do dinheiro e das armas, enganou o povo americano.
Segundo o PÚBLICO (11.01.2007), Condoleezza Rice acaba de anunciar a criação de um novo Prémio de Diplomacia, a conceder anualmente a uma empresa, instituição académica ou outra organização não-governamental e mesmo a indivíduos que se destaquem na promoção da imagem dos EUA em outros países, através de iniciativas de "compreensão intercultural". O galardão, que recebeu o nome de Benjamin Franklin, pretende motivar aquelas organizações a desempenharem um maior papel na diplomacia, no momento em que a imagem do governo norte-americano tem vindo a deteriorar-se a nível global e, especialmente, no mundo árabe e muçulmano, desde a invasão do Iraque.
Talvez não fosse pior gastar esse dinheiro com uma boa equipa de psiquiatras que se ocupassem da sanidade mental da administração Bush.
(1) "Um Diálogo Ibérico no
Contexto Europeu e Mundial", Lisboa, Temas e Debates, 2006. »

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

Artigo no Público de hoje

Nada de novo sobre a terra
José Pacheco Pereira

«Durante dias arrumei velhos papéis dos últimos anos do século XIX e primeiros do século XX, que popularizavam duas correntes político-ideológicas, próximas, mas distintas: o anarquismo e o sindicalismo revolucionário. Junto com esta colheita vem sempre outra por proximidade, dos tempos e das pessoas, propaganda republicana e panfletos anticlericais.
Estes papéis são facilmente reconhecíveis para quem tenha treino de livros velhos e de alfarrabistas. Pequenos, muitas vezes mais pequenos do que um bolso, raras vezes chegando às trinta páginas, num papel mau, com capas tão finas que se rasgam com muita facilidade. Tinham que ser baratos e eram feitos para pessoas que não estavam muito habituadas a ler e quase não tinham cultura formal. As ilustrações são escassas e rudimentares, mas a iconologia é típica. Retratos dos mestres, gravuras ou zincogravuras, com Tolstoi, Bakunine, Reclus, Hamon, e várias figurações que têm como centro ou o horizonte o Sol.
Eram fiéis a séculos de imaginário bíblico, mesmo sem o perceberem. Eles não sabiam que o Sol que lá aparecia era o mesmo Sol que ilustrava as capas dos livros de catecismo, e onde no catecismo ocupava o lugar de Deus, para eles estava o Futuro. Aquele Sol era o Futuro, ou seja, o sentido inscrito na História, e as personagens que o rodeavam, o apontavam, para ele caminhavam eram figuras masculinas - os homens sempre mais altos do que as mulheres, os homens levando atrás de si a família, a mulher e os filhos, mas sempre os homens como actores - que caminhavam do mundo de miséria quotidiana para a Jerusalém Libertada, para a Nova Jerusalém. De Babilónia para Jerusalém, era todo o programa da libertação.
A "emancipação" dos grilhões do presente, do trabalho escravo, fazia-se quase que magicamente - a iconografia militarizada e violenta é uma contribuição posterior do bolchevismo - pela "união", pela solidariedade e pela luta. Meia dúzia de frases que hoje nos parecem ingénuas, mas foram terrivelmente poderosas, ilustravam como dísticos esta literatura: "um por todos, todos por um", "paz entre nós, guerra aos senhores", "o homem livre sobre a terra livre", "quem não trabalha não come", "proletários de todo o mundo uni-vos!".
No seu conjunto um pouco heteróclito, propaganda anarquista, sindicalista, pacifista, antimilitarista, antitouradas, vegetariana, neomalthusiana (ou seja, a favor do controlo dos nascimentos), homeopática, espírita nalguns casos, era a contracultura popular na época, que circulava entre um pequeno mundo de artesãos urbanos, tipógrafos, cinzeladores, marceneiros, canteiros, fragateiros, e mais meia dúzia de profissões já extintas. Era lida também por estudantes e intelectuais, quase sempre os mais remediados e desenraizados, vivendo o mundo mítico das mansardas, escrevendo versos e sonhando com uma versão social da Dama das Camélias no meio das chamas da revolução. Aquilino, Nemésio, Ferreira de Castro leram e ocasionalmente escreveram literatura próxima destes panfletos.
Quando olho estes livrinhos frágeis - À Mocidade, A Evolução Legal e a Anarquia, Necessidade da Associação, A Conquista do Pão, No Café, Entre Camponeses, A Sociedade Futura e tantos outros -, endireitando as páginas dobradas, consertando os rasgões, protegendo-os com um plástico qualquer do Futuro que os envelheceu, não posso deixar de perguntar o que sobra de todos eles depois de cem anos de "guerra total" que nos endureceu face a todas estas ingenuidades. Mas mesmo que nada no nosso mundo do século XXI se pareça com o mundo das tabernas revolucionárias de Alcântara, não consigo deixar de ter uma forte sensação de déjà vu. Isto continua tudo por aí, quase da mesma maneira, o mesmo pensamento, a mesma visão, mesma pulsão igualitária, niveladora, os mesmos gestos simples e mágicos de que se espera o milagre da Revolução, a mesma ilusão de um mundo primitivo e feliz, sem egoísmo e sem maldade a não ser nos "de cima", nos "senhores". Este mundo está vivo e bem vivo na Internet, na Rede, no ciberespaço. Nada se cria, tudo se transforma.
Nos dias de hoje todas as teorias da História, que sofreram a crise das teleologias, os herdeiros de Hegel, Marx e Teilhard de Chardin, reconverteram-se em utopias tecnológicas, que mais do que descritivas são programáticas, dizem-nos, com a felicidade de um sorriso, não só como as coisas vão ser assim, mas também como devem ser assim. Gente culta e inteligente, génios da tecnologia, que não sabem muita história, não escapam à ideia de que as novas tecnologias permitirão uma engenharia social poderosa, que nos tornará mais solidários (em Rede), mais poderosos na igualdade (as ideias niveladoras fazem o seu caminho com a noção de "empowerment"), num mundo que não precisa de mediações, não necessita de delegar poderes, mais felizes porque interagimos numa terra sem propriedade (os átomos dissolvem-se nos bits e estes não tem dono).
Do Linux, e de todo o software grátis e "livre", a mágica palavra (lembram-se de "o homem livre sobre a terra livre"?), à saga teórica e prática contra os direitos de propriedade, que institucionalizou o velho "roubo" de que falavam Proudhon e Preobajensky; da "town hall democracy" à ideia de construir um mítico agora em que todos podem votar sobre todas as questões em tempo quase real, não sendo necessário nem um parlamento, nem um governo, podendo ser este apenas um grupo de tecnocratas executores das decisões da "comuna"; da Wikipédia, enciclopédia colectiva dos homens comuns que não precisam de "senhores", em que mais importante do que o rigor dos artigos é o facto de serem feitos por todos, onde são as massas que "fazem" a ciência (como se diz num comentário num blogue: "A wikipédia não é mesmo uma enciclopédia de autor. Prefiro assim. Prefiro que seja validada a opinião da generalidade, daqueles que verdadeiramente fazem algo pela disseminação de cultura. O conhecimento absoluto e pessoal está condenado com este novo critério editorial") ao "jornalismo dos cidadãos", em milhares de pequenos passos, a Revolução passou para a Rede e aí dissolve os poderes tradicionais. Passou também a Contra-Revolução, mas isso é toda uma outra história. Historiador»

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Hoje, no jornal O Público

«Educação: uma oportunidade perdida

A participação dos portugueses em matéria de cidadania activa reduz-se ao mínimo possível e acaba invariavelmente por resvalar para o conformismo e resignação. O país não precisa apenas de reformas na administração pública; não precisa apenas de combater o défice; o país precisa de uma verdadeira revolução das ideias, o país precisa de cidadãos activos que se interessem e que pensem sobre as grandes causas. Todavia, a ausência de espírito crítico e a inexistência de um debate de ideias constituem paradigmas de uma democracia que ainda se encontra longe da sua consolidação. Além disso, o problema agrava-se quando se verifica que não se está a fazer o suficiente para inverter esta tendência, muito pelo contrário - as novas gerações estão condenadas ao mesmo destino.
A educação teria a este nível um papel absolutamente determinante; contudo, a escola está impregnada por uma lógica que propagandeia a falta de rigor, a irresponsabilidade e a ausência de valores. Vive-se num contexto onde impera a indolência. Faz-se a apologia de tudo o que não exija muito esforço, em particular tudo o que evite o recurso a qualquer tipo de exercício mental - esta é a lógica que muitos acham adequada para servir a educação. Toda esta situação se agrava com o facto de se viver num ambiente onde se dissemina endemicamente a vacuidade. Desde logo, nas escolas o rigor e a exigência são palavras desprovidas de sentido, a própria filosofia da escola promove subrepticiamente a falta de rigor e a irresponsabilidade. A escola tenta atabalhoadamente adaptar-se a um mundo global em constante mutação, respondendo-se assim improficuamente às novas realidades sócio-económicas e multiculturais de um ensino massificado.
Assistimos a acerbas discussões sobre educação e sempre que se fala em educação descura-se esta questão fundamental: a escola deixou-se encantar pelo politicamente correcto, não se entusiasma com o espírito crítico ou com a refutação de ideias. Desta forma, as escolas deixam de ser apenas depósitos de crianças e jovens e passam a ser também fábricas de cidadãos desinteressados, amorfos e incultos. Porquanto, está-se a criar uma sociedade onde não se valoriza a ideia e o pensamento; esquece-se que é assim que tudo começa... com uma ideia!
Na verdade, está-se a perder uma iniludível oportunidade para se acabar com este deserto de ideias e de vontades que se chama Portugal; a escola deveria ter nesta matéria um papel central. É impreterível que o cidadão tenha um papel preponderante num Estado democrático, e a escola deve ter como missão primordial a valorização do papel do cidadão activo, crítico e responsável. Ora, esta é uma oportunidade que não pode ser contemplada com a habitual displicência. Se nada for feito para contrariar este défice no plano da cidadania activa, teremos um país onde imperará a resignação, a irresponsabilidade e o egocentrismo. Este contexto desfavorável à democracia constitui, contudo, terreno fértil para a demagogia e para a manipulação. »
Ana Gonçalves, Arrentela-Seixal